Encontro dominante em Viseu

Pimenta na Mente

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A cidade parecia adormecida quando cheguei ao AL, uma daquelas casas renovadas no centro histórico de Viseu, onde as fachadas guardam segredos de pedra e sombra.

O Rossio ali perto, deserto àquela hora, apenas ecoava os meus passos contidos. Entrei com o código que ela me enviara.

A luz era baixa. Uma tonalidade âmbar espalhava-se pelas paredes como se preparasse o palco para algo que só nós sabíamos.

O cheiro era uma mistura doce de perfume feminino e madeira antiga. Estavam já lá em cima. Eu sabia.

Subi devagar, e cada degrau parecia amplificar o compasso do meu peito. Quando empurrei a porta do quarto, encontrei-as sentadas lado a lado na beira da cama.

A Beatriz (portuguesa, olhos inquietos, sorriso de quem provoca sem pedir desculpa) e ao seu lado, a Elena (venezuelana, morena, olhar indecifrável, com um nervosismo contido na forma como cruzava as pernas).

“Estavam à minha espera?” perguntei, sem sorrir.

A Beatriz ergueu-se, aproximou-se. Tocou-me no peito como quem testa o calor antes de se lançar à fogueira. A Elena não se moveu. Apenas observava.

“Ela quis vir”, murmurou a Beatriz. “Disse que só vinha se pudesse só… assistir.”

“E tu?” perguntei, fitando a Elena pela primeira vez.

Ela engoliu em seco. Os olhos fugiram por um instante, depois voltaram aos meus.

Acenou levemente, sem dizer nada. O desejo e a culpa dançavam-lhe nas pupilas.

A Beatriz voltou-se para mim, colando o corpo ao meu, erguendo o queixo. “Mostra-lhe.”

Não foi necessário mais. Pousei a mão na sua nuca, puxei-a para mim com firmeza. O beijo foi quente, urgente. A Elena ofegou ao ver, mas não desviou os olhos.

Eu sentia a tensão nela como um fio esticado até quase partir. Sentou-se mais direita, com os joelhos a apertaram-se. Já as mãos estavam tímidas e afundaram-se entre as pernas.

A Beatriz guiou-me até à cama. A sua entrega era de quem já conhecia as regras daquele jogo. Atirámos almofadas, descompusemos lençóis.

E no centro da cama, entre o calor dos nossos corpos, ela abriu-se como uma flor desinibida.

Mas os meus olhos, por vezes, procuravam a Elena. Sentada numa cadeira perto da janela, a luz da rua recortava-lhe o perfil.

Uma mão já desaparecera por baixo da saia. A outra segurava um brinquedo pequeno, discreto. Tremia.

“Estás a gostar, Elena?”, perguntei, sem parar os gestos que arrancavam suspiros à Beatriz.

Ela mordeu o lábio inferior. Não respondeu, mas os olhos suplicavam que não parássemos.

A sensação de ser observado por alguém que reprime o próprio desejo… há algo de profundamente erótico nisso.

E eu sabia que, ao dominar a Beatriz, estava a desarmar a Elena.

A Beatriz contorcia-se, sussurrava o meu nome. O som da respiração da Elena tornava-se mais audível, mais irregular.

A mão movia-se sob o tecido com urgência crescente. O brinquedo piscava uma luz fraca, e eu imaginava a vibração contra a sua pele tensa.

Pedi à Beatriz que se ajoelhasse diante de mim. Ela obedeceu, de olhos baixos. A Elena estava imóvel agora, apenas os dedos se moviam num compasso íntimo.

O olhar dela era uma súplica silenciosa.

“Queres vir até aqui?” sugeri, apontando com o queixo para a cama.

A Elena abanou a cabeça. Mas não saiu. Continuou ali, na sombra, entre o querer e o não poder.

A tensão era tanta que a própria negação tornava-se um combustível para o nosso fogo.

Quando a Beatriz arqueou as costas numa última espiral de prazer, a mão da Elena tremeu. O brinquedo caiu ao chão, ainda a vibrar.

Os seus olhos brilharam, perdidos, mas não acabou ali.

A Beatriz, suada e com o corpo dormente, aninhou-se ao meu lado. A Elena, depois de um longo momento em silêncio, levantou-se.

O vestido colava-se-lhe ao corpo. Os olhos evitaram os nossos, mas as pernas denunciavam a fragilidade do seu estado.

Dirigiu-se lentamente à casa de banho. O som da água a correr trouxe-nos de volta à realidade, por breves segundos. Assim que regressou, trazia nos olhos algo diferente: rendição, talvez ou algo mais perigoso.

Aproximei-me da janela. A noite vestia Viseu com silêncio denso. A Elena, agora em silêncio absoluto, foi buscar o brinquedo do chão, limpou-o com um lenço húmido, e colocou-o sobre a mesa de cabeceira como se devolvesse um artefacto sagrado ao seu altar.

Sentei-me na poltrona, enquanto a Beatriz, entorpecida, permanecia deitada.

A Elena manteve-se de pé, diante de mim, as mãos entrelaçadas. Não disse nada.

“Estás arrependida de ter vindo?” perguntei.

Ela abanou a cabeça. Devagar.

“Tens medo de querer mais?” insisti.

Uma pausa. Depois, um sim quase imperceptível.

Estendi-lhe a mão. Ela não a segurou, mas também não se afastou. Entre nós havia uma fronteira invisível, feita de promessas não ditas, de vontades que ainda se seguram por um fio.

A Beatriz observava-nos agora. Os olhos semiabertos, um sorriso suave nos lábios. Como quem assiste a um filme onde já sabe o final, mas ainda se comove.

A Elena voltou a sentar-se. As pernas cruzadas, os dedos a tamborilar levemente no joelho. O corpo já não tremia, mas havia uma energia acumulada que lhe incendiava o ar em volta.

Ficámos assim durante minutos. Três silhuetas num quarto onde o tempo parecia suspenso. Depois, ela falou:

“Não foi só curiosidade.”

O coração bateu-me mais forte.

“Eu sei.”

Ela olhou para mim. Pela primeira vez, sem disfarce.

“A Beatriz… ela sabia que eu queria. Desde o primeiro dia que falaste com ela.”

A Beatriz riu baixinho. “Eu só empurrei.”

O resto da noite não exigiu mais toques. Nem palavras. Ficámos juntos, entre corpos gastos e vontades em suspensão.

A Elena deitou-se entre nós, sem nos tocar. Mas o calor dos três corpos contagiava o ar. Adormecemos assim, envoltos na eletricidade do não-dito, do quase, do por-vir.

Acordei com a luz a atravessar as cortinas e o cheiro subtil de café vindo da cozinha. A Beatriz ainda dormia, profundamente entregue ao corpo. A Elena já não estava no quarto.

Mais tarde, quando a Beatriz acordou e se juntou a mim, falámos pouco. O silêncio entre nós não era desconforto, mas cumplicidade.

Ela sabia, como eu, que algo se tinha acendido naquela noite que não podia ser apagado.

Dois dias depois, recebi uma mensagem no WhatsApp por parte da Elena. Disse apenas que o marido ia trabalhar para fora durante uma semana, no início de fevereiro.

E perguntou-me se eu estaria disponível para a encontrar.

Desta vez, sem público. Só ela e eu. Disse que queria ser amarrada. Que queria ser controlada.

“Tenho pensado nisto desde aquella noche. Na forma como me olhaste. Como me dominaste sin siquiera tocarme. Preciso sentir isso outra vez. Pero desta vez, quero ir mais lejos. Quero estar às tuas ordens.

O meu marido vai estar fora durante la primera semana de febrero. Quero encontrar-me contigo. Só nós dois. Quero ser amarrada, deitada de espaldas, sem saber o que vais fazer depois. Quero sentir tu mano a tapar-me os olhos. Quero ouvir tu voz a dizer quando posso tocar-me… o no. Quero que uses tu cinto. Que me faças pedir por más. Que me deixes à espera, desnuda, de rodillas, a tremer por dentro.

Confio em ti. Y deseo perder o controlo nas tuas mãos.”

Sorri. Não lhe respondi logo, porque ambos sabíamos: o jogo já tinha começado. E ela não queria pedir, queria entregar-se.

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