A primeira vez que ele a viu, o mundo ficou em silêncio. Estava nos bastidores de um festival itinerante, onde a música se misturava com o cheiro a cerveja quente e fumo de palco.
Tinha acabado de desmontar a sua bateria quando a viu passar com um andar firme, os cabelos castanhos a deslizar-lhe pelas costas, o corpo desenhado por um fato preto justo, o olhar demasiado seguro para fingir inocência. Ela era a Filipa.
Ele não sabia o nome, não ainda. Sabia apenas que ela trabalhava com a banda que iria atuar no dia seguinte, pois viu-a com outros elementos dessa banda conhecida.
Ouvira dizer que dançava, mas aquilo que o prendeu não foi a dança, nem a forma como se movia, foi o silêncio em volta dela. Como se o espaço se encolhesse quando passava, como se ela trouxesse consigo uma espécie de magnetismo cru.
Ela reparou nele também. Sentado numa caixa de som, ainda a suar da atuação, olhos hazel que a seguiram com uma intensidade quase insolente. A barba mal feita, a camisa escura com dois botões desapertados, a pele clara marcada por uma cicatriz discreta no pulso esquerdo. As pessoas conheciam-no pelo seu apelido: Almeida.
O tipo de homem que carrega o caos nos dedos e uma história mal contada no olhar.
No dia seguinte, cruzaram-se outra vez. Desta vez nos corredores de acesso ao backstage. As paredes estavam gastas, com o eco de passos e vozes abafadas a misturar-se com o som distante dos ensaios. A luz era baça, quase azulada, e o cheiro a cabos elétricos aquecidos e maquilhagem criava um ambiente estranho, suspenso no tempo.
Ele estava encostado à parede, braços cruzados, uma outra camisa mais clara e ligeiramente desabotoada, olhar preso ao movimento dela. A Filipa vinha distraída, uma sandália na mão (a tira tinha rebentado minutos antes) e o andar elegante agora pontuado por um leve desequilíbrio.
Mesmo descalça, mantinha uma presença impossível de ignorar, como se a vulnerabilidade lhe assentasse com uma ironia sensual.
Quando se cruzaram, ele não resistiu a provocar:
— Esse é o novo estilo? Dançar com um só pé?
Ela riu-se, sem pressa, o olhar a prender-se no dele com aquela mistura desconcertante de desafio e graça.
— A sandália é que decidiu que hoje não queria palco.
Ele inclinou-se ligeiramente e o sorriso subiu-lhe aos lábios com naturalidade.
— Ontem foste tu quem dançou dentro da minha cabeça. Hoje, parece que vens pisar o meu juízo.
O jogo começava ali. Ele deu um passo mais perto, sem romper o espaço dela, mas o suficiente para o silêncio entre ambos se tornar quase táctil. O olhar dele era direto, firme, mas sem arrogância, havia algo de transparente na forma como a via.
— Posso ter o teu número?
A pergunta saiu sem rodeios, mas com intenção. Ela arqueou ligeiramente uma sobrancelha, como quem é abordada com demasiada frequência para se impressionar com facilidade.
— Tão depressa? — perguntou, brincando com a correia partida da sandália. — E onde está o mistério?
Ele sorriu, aceitando o desafio.
— Há coisas que não precisam de mistério para serem certas. Só atitude.
Ela mordeu o lábio inferior, por um instante. Não de hesitação, mas de gosto pelo jogo.
— Vais ter de merecer, Almeida. É assim que te chamam, não é? Não sou daquelas que se entregam ao primeiro pedido simpático.
Ele inclinou-se ligeiramente para o lado, quase em tom de conspiração e admirado por a Filipa saber o seu nome:
— Então diz-me o que tenho de fazer para merecer.
A Filipa não respondeu. Passou por ele com um toque breve no ombro, o suficiente para o arrepiar, e disse por cima do ombro, sem se virar:
— Surpreende-me.
E desapareceu no labirinto do backstage, deixando-o a saborear a promessa que não se disse.
Ele foi teimoso e conseguiu o que queria
Ele não ficou à espera do acaso. Depois do segundo cruzamento no backstage, o Almeida percebeu que havia coisas que não se podiam deixar ao sabor da sorte. Sabia o nome dela, mas não tinha mais nada. Passou parte da noite a remoer aquele sorriso, aquela resposta dita por cima do ombro, e a ausência de um número tornava-se uma espécie de tortura elegante.
Na manhã seguinte, durante a desmontagem dos equipamentos, encostou-se a um dos flight cases e chamou um técnico de som que já o acompanhara noutras digressões, conhecido por saber mais segredos do que frequências. Acenou com a cabeça em direção ao lado oposto do palco, onde a banda dela estava a recolher os instrumentos.
— Conheces alguém dali? — perguntou.
O técnico seguiu o olhar, mordeu um canto do lábio e soltou um sorriso enviesado.
— Conheço quem monta os in-ears da vocalista e quem já tentou com a bailarina.
— A bailarina — murmurou Almeida, como se dissesse o nome dela sem o dizer.
O técnico percebeu logo. Levou tempo, umas piadas de meio tom, um cigarro partilhado, e no final da tarde, recebeu uma mensagem com um número desconhecido e um aviso:
“Ela não é para amadores. Boa sorte. E olha… foi ela que me deixou dar-te o número”
Ele não respondeu. Apenas gravou o contacto: “Filipa”.
Esperou até à noite. Escreveu com hesitação disfarçada:
Parece que a sandália decidiu fugir antes de mim.”
Demorou dois minutos. A resposta chegou certeira:
“O curioso é que foste tu quem tropeçou.”
A partir daí, tudo deslizou. Mensagens curtas. Cheias de subtexto. Uma provocação a cada linha, um desafio velado em cada emoji sem rosto. Quase sempre fora de horas.
Quase sempre com aquela sensação de que se estavam a despir sem pressa, palavra a palavra.
Não foram diretos ao que ambos sabiam que estava ali. Começaram por cafés, encontros “casuais” em sítios com janelas grandes e pouco movimento, onde o tempo parecia desacelerar. Ele gostava de observar a forma como ela mexia no açúcar sem nunca o deitar, como se apenas gostasse de ter algo entre os dedos.
Ela reparava nos gestos dele: o modo como pousava a chávena, o olhar fixo nas mãos dela quando falava.
A tensão crescia com cada encontro. Um jogo subtil, lento, tão bem jogado que qualquer um que os visse pensaria que eram apenas conhecidos a explorar uma afinidade improvável.
Até ao dia em que, já de noite, sentados no carro dele depois de mais um desses cafés, o silêncio ganhou peso. Não havia música, só o som dos motores ao longe e a respiração deles a mudar de ritmo. Ela virou-se para ele com um sorriso calmo, mas os olhos diziam outra coisa.
— Já pensaste o que seria se eu me aproximasse agora?
Ele não respondeu. Aproximou-se.
Não chegaram a sair do carro nessa noite. As mãos dela deslizaram para dentro da camisola dele com uma fome contida, e os beijos foram crescendo como uma tempestade prestes a rebentar. Ela sentou-se no colo dele e os vidros embaciaram-se como num filme antigo.
Não houve pressa, mas também não houve volta atrás. O Almeida estava muito excitado e ela sentia isso, por baixo das calças de ganga. Já as suas cuecas, estavam molhadas e quentes do desejo sentido.
Apesar de tudo, não tiveram sexo nessa noite.
Foi depois disso que começaram a falar com menos filtros. Mesmo assim, demoraram. Um mês e meio de encontros suspensos, de toques por cima da roupa, de mensagens cada vez mais ousadas. Até que, numa dessas conversas sem hora, ele escreveu:
“E se hoje fosse diferente?”
Ela respondeu segundos depois:
“Diz-me onde.”
Escolheram um hotel discreto, a trinta quilómetros da cidade onde residiam. Um lugar longe o suficiente para que nada parecesse familiar.
Um quarto com paredes espessas, luz baixa, silêncio comprado ao minuto.
Chegaram e começaram as aventuras
O hotel ficava num edifício antigo, renovado por dentro, mas ainda com vestígios de um charme esquecido. Na receção, trocaram olhares cúmplices durante o check-in.
Não disseram mais do que o necessário: nomes, documento, uma assinatura feita com mão firme. O funcionário, educado e indiferente, entregou-lhes o cartão do quarto com um sorriso automático.
— Quinto andar — disse. — Têm o corredor quase todo por vossa conta hoje, temos atualmente poucos hóspedes.
A Filipa olhou para Almeida com um leve sorriso.
— Gosto de silêncio — murmurou.
— Eu também — respondeu ele. — Mas o que vamos fazer não pede silêncio.
Deram uns passos em direção ao corredor do elevador, mas em vez de subirem, o Almeida virou-se em direção às escadas.
— Sobes comigo? — perguntou, já com a mão na maçaneta da porta de emergência.
Ela olhou para trás e seguiu-o sem questionar, com o vestido a ondular-lhe pelas pernas, leves passos de sandália que pareciam ensaiados. Assim que a porta se fechou atrás deles, o mundo pareceu encolher.
As escadas eram de betão polido, mal iluminadas, com uma pequena janela em cada patamar que deixava entrar um fio tímido de luz exterior. No segundo lanço, ele travou-lhe o passo. Encostou-a suavemente contra a parede fria, sem uma palavra. Os corpos já sabiam o que fazer antes da mente decidir.
Beijaram-se com urgência contida. Beijos fundos, daqueles que misturam sede com raiva doce. A mão dele subiu pela perna dela, lenta, como se reconhecesse um território.
Quando chegou à dobra da coxa, empurrou suavemente a tanga para o lado. Os dedos entraram sem aviso, sem hesitação, precisos e conhecedores.
Ela arqueou ligeiramente as costas contra a parede, a respiração presa num gemido sussurrado.
— Almeida… — disse apenas, ofegante, o nome a sair-lhe como um aviso ou um convite.
Ele sorriu contra o pescoço dela, sem parar. Beijou-a de seguida, deixando um rasto molhado de saliva no seu pescoço e omoplata.
Segundos depois, ela segurou-lhe o pulso, ainda a tremer.
— Não aqui… leva-me para o quarto.
A subida até ao quinto andar foi feita em silêncio, mas não em calma. O ar entre eles vibrava. Assim que entraram no quarto, a porta mal teve tempo de fechar. Beijaram-se de novo, com mais fome, como se tudo o que tinham contido até ali agora exigisse lugar.
A Filipa puxou-o pela camisa até à casa de banho. Os azulejos brancos refletiam a luz amarela suave do espelho. Lá dentro, despiram-se com pressa controlada. Botões arrancados, tecidos arrastados, dedos que não sabiam se queriam tocar ou arrancar.
O espelho embaciou depressa. E o resto, estava apenas a começar.
A água corria já no chuveiro quando ela o olhou de frente, o corpo nu iluminado apenas pela luz quente que escapava do candeeiro do espelho.
— Quero que me digas o que fazer — sussurrou. — Hoje, quero que me guies.
Não era uma entrega cega. Era consciente, carregada de desejo e confiança. Ele não respondeu de imediato. Passou-lhe apenas os dedos pelo queixo, obrigando-a a manter o olhar preso ao dele, e sorriu com a lentidão de quem acabou de assumir o leme.
— Então começa por entrar no chuveiro. Sem falar.
Ela obedeceu. A água caiu-lhe sobre o corpo como um lençol morno, os cabelos a colarem-se à pele. Ele entrou atrás, encostando-se a ela, mãos grandes a percorrerem-lhe as costas, os quadris, o pescoço. Ensinava-lhe o ritmo com os toques, com os silêncios entre os toques.
— Agora vira-te. Lava-me. Como se cada gesto fosse uma confissão.
A Filipa pegou no gel com mãos cuidadosas. Passou-o pelo peito dele com movimentos lentos, concentrados. Como se o seu toque tivesse memória. Os dedos desenhavam linhas invisíveis sobre a pele molhada, explorando o relevo dos músculos como se fosse a primeira e última vez.
O Almeida fechou os olhos, absorvendo não só o prazer físico, mas a entrega contida na forma como ela o fazia. Cada gesto dela parecia uma escolha consciente, uma promessa sussurrada sem som. Quando o gel escorreu em pequenos fios pelos abdominais dele, a Filipa desceu as mãos com naturalidade, deixando que o toque se tornasse mais íntimo, mais fundo.
A mão aproximou-se do membro dele, já duro, bem ereto, e ela sorriu levemente, com aquele ar de quem sabe o efeito que provoca.
Mas antes que o tocasse, o Almeida segurou-lhe o pulso com firmeza.
— Não ainda — disse-lhe, num tom baixo, próximo do ouvido. — Agora és tu quem recebe.
A Filipa mordeu o lábio e contorceu os olhos, contendo um arrepio que já lhe percorria a espinha. Ele passou a mão livre pela lateral do corpo dela, subindo devagar até ao peito. Os dedos encontraram-lhe os mamilos tensos, a pele eriçada debaixo do calor da água.
Ela fechou os olhos por um instante, inspirando fundo. Ele sorriu.
— Sensível… gosto disso.
Fez círculos lentos, quase torturantes, deixando que a água quente tornasse tudo mais intenso, mais desperto. A pele dela reagia a cada toque, como se ele escrevesse nela uma linguagem nova. E ela… deixava-se escrever.
Depois disso, saíram do duche e, depois de se secarem, ele disse-lhe apenas:
A água do chuveiro tinha deixado os corpos deles mornos, despertos, e o vapor ainda pairava no ar quando ele saiu da cabine e estendeu-lhe uma toalha. Ela aceitou, mas não a usou de imediato. Ficou apenas ali, a observá-lo enquanto ele se secava com gestos lentos, confiantes. Havia algo de cru naquele silêncio.
Almeida pousou a toalha no lavatório, olhou-a com intensidade e disse, com a voz firme, quase rouca:
— Ajoelha-te. Aqui e agora.
A submissão começava a partir de agora
Ela obedeceu sem desviar o olhar, os joelhos a tocarem no chão ainda húmido da casa de banho. A pele molhada colava-se levemente ao mosaico frio, o contraste a provocar-lhe arrepios imediatos. O cabelo, encharcado, escorria-lhe pelos ombros e colava-se às clavículas. Fê-lo sem hesitar, com reverência. Como quem entra num pacto silencioso.
Ele aproximou-se, firme, o membro já ereto a erguer-se diante dela como uma ordem implícita. O Almeida levou uma das mãos ao rosto dela e afagou-lhe a bochecha com o polegar, num gesto que misturava ternura e controlo.
— Devagar — murmurou. — Quero sentir a tua boca como se fosse a primeira vez.
A Filipa inclinou-se, os lábios a roçarem-lhe primeiro a base, sem pressa. A língua explorava-o com movimentos circulares, atentos, como se o estudasse. Depois, envolveu-o com a boca num gesto envolvente, húmido, profundo. O som da respiração dela, o ritmo constante e sem pressas, fazia eco no pequeno espaço da casa de banho.
Ele entrelaçou os dedos no cabelo dela, guiando-a com leveza, mas com uma intenção clara. Controlava o ritmo: ora lento, quase provocador, ora mais intenso, exigente, com gemidos baixos a escaparem-lhe pela garganta.
Os olhos dela mantinham-se presos aos dele, obedientes mas intensos. Como se procurassem, naquele contacto, não apenas prazer, mas afirmação. Estava a servi-lo, sim, mas sem se perder.
A mão dele apertou-lhe a nuca no momento em que sentiu o arrepio mais agudo percorrer-lhe a espinha. A respiração dele falhou por um segundo. E foi então que, com um gesto firme, a puxou pelos braços.
— Chega. Levanta-te.
Ela ergueu-se com um sorriso satisfeito nos lábios, os olhos ainda a arder. Com uma das mãos, limpou os fluídos dos lábios, a saliva a escorrer do seu queixo.
— Deita-te na cama do quarto — ordenou. — Agora és minha.
E levaram o calor da casa de banho até à cama, onde tudo se reescreveu em pele.
Ela recuou até aos lençóis, ainda húmida da água e do desejo acumulado. O corpo mergulhou na brancura macia do colchão como quem se oferece. O Almeida seguiu-a, os olhos escuros a percorrerem-lhe cada centímetro com a calma de quem não se apressa quando sabe exatamente o que fazer.
Subiu para cima dela, e sem uma palavra, prendeu-lhe os pulsos acima da cabeça com uma das mãos. Com a outra, desceu pelo seu flanco, explorando-lhe a pele com os dedos tensos, calculados. A Filipa estremeceu, mas não resistiu: abriu-lhe espaço com o corpo, com a respiração, com os olhos.
— Vais ficar assim, (disse-lhe ao ouvido, a voz baixa, cravada no timbre certo entre comando e carinho) quietinha. Até eu decidir o contrário.
O corpo dela acatava, mas havia fogo por trás da entrega. Cada músculo vibrava de tesão.
O Almeida começou por posicionar-se entre as pernas dela, forçando-a a abrir-se. Os tornozelos dele prenderam-lhe os dela contra o colchão, imobilizando-a com uma pressão firme, mas sem violência. Nessa imobilidade, ela encontrou liberdade, os olhos semicerrados, a boca entreaberta a conter gemidos que lhe fugiam sempre que ele a tocava.
Mudou de posição. Puxou-lhe uma perna sobre o ombro, inclinando o corpo para trás, obrigando-a a arquear-se. Uma das mãos agarrou-lhe o tornozelo com força, enquanto a outra explorava, pressionava, guiava. A vulnerabilidade do ângulo, o controlo absoluto dele sobre o ritmo, deixava-a à beira de algo mais fundo. Mais primitivo.
Depois, virou-a de costas, puxando-a suavemente até à beira da cama. Prendeu-lhe os punhos com o cinto das suas calças. Não apertava ao ponto de doer, mas o suficiente para marcar a posse. E quando a penetrou por trás, com movimentos ritmados e profundos, inclinou-se sobre ela e sussurrou:
— Cada vez que gemes, és mais minha.
Ela gemia. Como se isso fosse tudo o que lhe restasse.
Mudaram de novo. Ele deitou-se de costas e guiou-a a montar-se sobre ele, mas ainda ali, ele comandava. As mãos dele firmes nas ancas dela, ditando o ritmo, travando-o quando ela queria mais, acelerando quando ela perdia o fôlego. O corpo dela tremia, entregue. E os olhos, sempre presos aos dele, diziam o que nenhuma palavra podia traduzir: obrigada por me guiares assim.
O Almeida terminou com ela deitada de lado, contra o seu peito, uma perna entrelaçada à dele, os corpos ainda a pulsar. Soltou-lhe os pulsos com cuidado, e levou-lhe os dedos à boca, como um selo final.
— Ficaste bonita assim… amarrada ao que queres.
Ela sorriu, exausta, saciada, completamente dela, porque se sabia completamente dele. O corpo ainda vibrava em pequenas ondas de prazer, como se demorasse a regressar à pele depois de ter estado fora dela. Mas Filipa não estava satisfeita.
Subiu por cima dele, os olhos ainda escuros de desejo, e sussurrou-lhe ao ouvido:
— Ainda não acabei contigo.
Beijou-lhe o peito, o pescoço, o abdómen. Foi descendo com a mesma calma que usava para provocar, com a precisão de quem conhece e venera. Quando o membro dele endureceu novamente ao toque dos lábios dela, ela sorriu contra a pele, orgulhosa da resposta imediata.
— Quero-te na boca outra vez. Mas agora, quero mais de ti.
O Almeida deitou-se de lado, e ela acomodou-se na posição certa, por cima, de costas, o corpo alinhado ao dele. Um 69 envolto em calor e humidade, onde ambos davam e recebiam. A boca dela sugava-o com intensidade, saboreando cada movimento, cada gemido. Desta vez, o oral era mais agressivo, forte e decidido.
A boca dele explorava-a com a mesma dedicação, os dedos a apertarem-lhe a anca sempre que ela descia mais fundo, mais lento, mais voraz.
O quarto encheu-se de sons húmidos e respirações entrecortadas, um vaivém de prazer mútuo que os mantinha presos um ao outro sem espaço para mais nada. Até que, com um gemido grave, abafado contra a coxa dela, o Almeida se deixou ir, o corpo a estremecer contra o dela, a respiração a falhar por segundos.
Ela soltou-o devagar, com a língua, com os lábios, como quem termina uma obra. Depois, virou-se e deitou-se ao lado dele. Silêncio.
As luzes da cidade entravam pelas frinchas da janela, pintando os corpos despidos com reflexos azuis e dourados. Ficaram ali, a respirar devagar, como se o mundo tivesse abrandado para eles.
A Filipa foi a primeira a falar:
— Isto… não vai ficar por aqui, pois não?
Ele olhou-a de lado. Não sorriu, contudo os olhos diziam mais do que qualquer promessa.
— Já estamos muito para além do aqui.
Ela encostou a cabeça ao peito dele. Ouviu-lhe o coração. E soube, sem saber explicar como, que o próximo encontro traria algo novo. Algo ainda não dito, algo que talvez mudasse tudo.
Mas por agora… era silêncio. E desejo. E aquela estranha sensação de que estavam prestes a entrar numa história que ainda não sabiam como iria terminar.




